.

Qual é o método a seguir para otimizar as suas compras de classe C?

Qual é o método a seguir para otimizar as suas compras de classe C?
Partilhar:

Em muitas organizações em Portugal, as compras de classe C continuam a ser tratadas como “não críticas”. No entanto, é precisamente aqui que se escondem grande parte dos custos indiretos e das ineficiências do processo de compra. Vários estudos sobre tail spend mostram que esta categoria concentra uma fatia muito elevada de fornecedores e transações, apesar de representar uma parcela reduzida do orçamento, o que multiplica o esforço administrativo e o risco de compras fora do processo.

A boa notícia? Existe uma abordagem prática para a otimização das compras que combina análise de dados, princípios Lean e um enquadramento ágil. Ao aplicá-la às compras de classe C, é possível reduzir custos totais, ganhar controlo e aumentar a qualidade de serviço ao utilizador final.

Por que razão as compras de classe C são um assunto estratégico em Portugal

Nas empresas portuguesas, as compras de classe C (consumíveis, MRO, EPI, material de escritório, pequenas ferramentas, etc.) tendem a dispersar-se por dezenas ou centenas de fornecedores e por múltiplos centros de custo. Este padrão gera custos administrativos desproporcionais (tempo de sourcing, criação de fornecedores, validação e reconciliação de faturas) e favorece decisões de compra de “sobrequalidade”.

Para agravar, o quadro regulamentar está a acelerar a digitalização documental: além da obrigação de faturação eletrónica nos contratos públicos (FE‑AP/CIUS‑PT) para fornecedores da Administração Pública, as regras de integridade/autenticidade no B2B evoluem e a exigência de assinatura eletrónica qualificada em PDFs foi reprogramada para 2026. Estes fatores tornam a automatização Procure‑to‑Pay ainda mais relevante para reduzir erros, acelerar a conferência e garantir conformidade.

Outro ponto sensível é o custo por transação. Benchmarks internacionais apontam para uma mediana próxima de 55 dólares por encomenda processada, valor que rapidamente se multiplica quando falamos de milhares de pedidos de baixo valor típicos da cauda longa. Este é precisamente o tipo de desperdício que a otimização das compras pretende atacar.

Criticidade e risco: como priorizar

Antes de agir, classifique a carteira com base no impacto financeiro e no risco de interrupção. Em compras simples, o foco estará na eficiência transacional; em itens críticos (por exemplo, EPI com marcação CE/EN ou peças MRO específicas), a prioridade recai sobre a qualidade assegurada, a rastreabilidade e a continuidade de abastecimento. Uma grelha simples de criticidade ajuda a definir níveis de serviço, alternativas de marca e políticas de armazenamento de segurança.

Uma abordagem “Lean‑Agile” para a otimização das compras de classe C

A “receita” para a otimização das compras de classe C assenta em dados limpos, práticas Lean e ciclos curtos de melhoria. Em Portugal, este método é particularmente eficaz porque endereça simultaneamente custos, conformidade (ATCUD/QR, FE‑AP) e qualidade de serviço. Para conhecer a fundo a abordagem, veja como o Lean Procurement foi adaptado às compras de classe C no nosso guia prático.

1) Racionalizar a carteira de fornecedores

Num cenário típico, a cauda longa pode concentrar a maioria dos fornecedores, mas uma fração reduzida do spend. Consolidar parte dessa carteira num distribuidor único com oferta abrangente reduz drasticamente o esforço administrativo e melhora as condições comerciais. Esta racionalização, quando suportada por dados de consumo e catálogos negociados, é uma das alavancas com maior impacto no TCO. Em contexto português, é comum encontrar empresas multi‑site (por exemplo, operações em Aveiro, Leiria e Braga) a trabalhar com listas locais diferentes; a harmonização por acordo central e catálogo único devolve escala e disciplina de compra. Estudos internacionais sobre tail spend documentam ganhos relevantes quando se consolidam fornecedores e transações dispersas.

2) Otimizar a seleção de produtos

Os requisitantes tendem a escolher referências “premium” por falta de orientação. Introduza catálogos guiados, perfis de utilizador e gamas “bom/melhor/ótimo” para garantir que a especificação responde ao requisito funcional, evitando sobrequalidade. Reforce este ponto com uma análise de TCO – Custo Total de Aquisição, para que o preço de compra deixe de ser o único critério e se contemplem custos indiretos (processo, devoluções, paragens, etc.).

3) Digitalizar as transações (Procure‑to‑Pay)

A digitalização do P2P—desde o catálogo punch‑out ao pedido, aprovação, receção e faturação—corta tempos de ciclo e erros de reconciliação. Em Portugal, além do e‑procurement como tecnologia habilitadora, vale a pena alinhar o formato de faturas com as exigências locais: ATCUD e QR Code obrigatórios nos documentos fiscalmente relevantes e, quando fornecem à Administração Pública, conformidade com a FE‑AP/CIUS‑PT. Este enquadramento reduz litígios, melhora o cash‑flow e favorece auditorias sem papel. Para os fornecedores B2B, a exigência de assinatura qualificada em PDFs foi adiada para 2026, o que permite planear a transição sem interrupções.

4) Otimizar a logística de entrega e disponibilização

A multiplicidade de micro‑encomendas consome recursos (receção, segurança, armazém) sem valor acrescentado. Combine entregas cadenciadas por zona/linha, pontos de entrega dedicados por equipa e reposição com método Kanban de stocks para reduzir movimentações e faltas. Muitas fábricas no Norte e no Centro conseguem ganhos rápidos ao sincronizar calendários de entrega semanais por célula produtiva, em vez de receções diárias dispersas. Em operações com grande rotação, a automatização em armazém e o picking guiado ajudam a manter níveis de serviço com a mesma equipa.

5) Implementar e fazer cumprir o acordo‑quadro

Após a negociação, o sucesso depende da execução. Uniformize condições para todos os estabelecimentos, socialize o catálogo preferencial e monitorize o maverick spend. A experiência mostra que comunicar bem o racional de TCO e visitar os sites críticos acelera a adesão. Saiba mais sobre armadilhas e boas práticas na implementação em compras indiretas com estratégia europeia.

6) Controlar a qualidade de ponta a ponta

Defina KPI’s simples e visíveis: taxa de serviço/OTIF, taxa de devoluções, lead time de aprovação e de entrega, percentagem de compras fora de catálogo. Revise causas‑raiz de não‑qualidade (ex.: especificação incompleta, falhas de dados‑mestres, duplicação de fornecedores) e feche o ciclo com planos Kaizen trimestrais. O objetivo é combinar otimização das compras com melhoria contínua do serviço ao utilizador interno.

Resultados esperados e próximos passos

Ao aplicar esta abordagem, as empresas portuguesas conseguem reduzir custos administrativos e transacionais, elevar a conformidade e melhorar a experiência do requisitante. A experiência no terreno confirma que a cauda longa é um foco de desperdício: consolidar fornecedores, simplificar escolhas e digitalizar P2P gera poupanças estruturais e maior previsibilidade. Para um enquadramento metodológico completo e exemplos práticos em compras de classe C, explore o nosso guia prático.

Notas e referências principais
– Em compras de cauda longa, 60–80% da base de fornecedores e grande parte das transações concentram‑se fora das categorias estratégicas, amplificando custos e complexidade.
– O custo mediano por encomenda processada situa‑se em torno dos 55 $ (≈50 €), oferecendo uma ordem de grandeza para calcular ganhos de digitalização.
– Faturação eletrónica no setor público português: obrigações e prazos FE‑AP/CIUS‑PT, com atualizações oficiais publicadas pela eSPap.
– ATCUD e QR Code: requisitos para documentos fiscalmente relevantes em vigor, conforme legislação e orientações oficiais.
– Maturidade das PME em e‑invoicing: margem de progressão assinalável no tecido empresarial português.

White paper

Racionalize o seu portfólio de fornecedores

A Nossa Newsletter

Fique a par de todas as novidades