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O que é a transformação digital e como está a revolucionar a função de compras?

O que é a transformação digital e como está a revolucionar a função de compras?
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Nos últimos anos, a digitalização passou de promessa a requisito competitivo em Portugal. Entre a aceleração do comércio eletrónico, o avanço do 5G e a disponibilização de serviços públicos digitais, as organizações portuguesas—públicas e privadas—estão a redesenhar processos para ganhar resiliência, eficiência e velocidade de resposta. Em particular, os departamentos de compras têm vindo a assumir um papel estratégico nesta mudança, ao alinharem tecnologia, processos e competências com os objetivos do negócio. A questão de partida, portanto, é simples: o que é a transformação digital e como se traduz, na prática, para as compras?

O que é a transformação digital?

Falamos de uma mudança estruturante que integra tecnologias como Internet das Coisas, Inteligência Artificial, computação em nuvem e análise de dados massivos em todos os níveis da organização. Mais do que informatizar tarefas, a transformação digital implica repensar operações, cultura e modelos de criação de valor—do desenho da oferta à forma como interagimos com clientes, colaboradores e fornecedores. Na União Europeia, esta transição é enquadrada pela Década Digital (2030) e acompanhada através do antigo DESI/atual relatório do “Estado da Década Digital”.

Em Portugal, a adoção é visível—e desigual. Em 2025, cerca de 11,5% das empresas com 10 ou mais pessoas ao serviço declararam usar tecnologias de IA, com quase metade das grandes empresas já a recorrerem a estas soluções. No comércio eletrónico, as vendas representaram 20,6% do volume de negócios em 2024; e o recurso a serviços de nuvem ronda quatro em cada dez empresas. Estes números dão o tom: a transformação está em curso e cria vantagens competitivas para quem a operacionaliza nas compras.

A transformação digital no centro da função de compras

Nos serviços de compras, a digitalização já não é um “extra”: é parte integrante da estratégia. Muitas organizações começaram por desmaterializar o ciclo Procure‑to‑Pay, adotando catálogos eletrónicos, workflows de validação e integração com faturação eletrónica. Para um enquadramento prático e benefícios esperados, vale a pena rever o que é o e‑procurement, incluindo as diferenças face ao e‑sourcing e os ganhos típicos em custo, tempo e controlo.

No contexto português, o ecossistema público reforça esta tendência. O portal BASE centraliza a contratação pública e lista as plataformas eletrónicas licenciadas—como Vortal, ANOgov, acinGov e ComprasPT—que suportam procedimentos e interações digitais entre entidades adjudicantes e fornecedores. Para quem vende à Administração Pública, a fatura eletrónica é obrigatória: grandes empresas já desde 2021; PME e microempresas a partir de 1 de janeiro de 2026, conforme calendário atualizado pela eSPap. Este enquadramento regula processos e acelera a maturidade digital nas relações com fornecedores.

Após a digitalização do “básico” P2P, as prioridades têm convergido para tecnologias maduras com retorno comprovado:

  • Com dados mais fiáveis e acessíveis, a análise avançada e a visualização em tempo real dão visibilidade a categorias, compliance e desempenho de fornecedores. A adoção crescente de serviços de nuvem entre as empresas portuguesas está a viabilizar estes casos de uso.
  • A automação inteligente liberta tempo das equipas, encurta ciclos de requisição‑encomenda‑fatura e reduz erros. Em paralelo, a IA nas compras já mostra ganhos de produtividade e melhor qualidade informacional.
  • A rastreabilidade na cadeia de abastecimento, impulsionada por IoT, análise de dados e, em alguns setores, blockchain, ganha relevância—com exemplos locais na fileira agroalimentar, do SmartAgriChain a projetos coordenados em Portugal como o WATSON (INESC TEC) para reforçar a autenticidade (por exemplo, nos vinhos do Douro).

Para maximizar o valor, é crucial uma abordagem de gestão da mudança que envolva utilizadores internos, TI e fornecedores. Ferramentas sem processos e competências atualizadas dificilmente entregam o potencial prometido.

Desafios e prioridades da transformação digital nas compras

A aceleração digital traz benefícios claros mas coloca novos focos de atenção. É aqui que as direções de compras em Portugal podem fazer a diferença, ao ligarem tecnologia, risco e sustentabilidade numa mesma agenda.

Cibersegurança

Com processos, dados e integrações a fluírem por plataformas e APIs, a superfície de ataque aumenta. Em 2024, o CERT.PT registou 2 758 incidentes (+36% face a 2023), segundo o relatório “Riscos & Conflitos” do CNCS. A transposição da Diretiva NIS2 para o ordenamento jurídico nacional, em dezembro de 2025, reforça requisitos e coordenação, com a ANACOM a assumir competências setoriais para comunicações e serviços postais. Para os compradores, isto traduz‑se em mapear a cadeia de fornecimento digital, exigir controlos mínimos (MFA, cifragem, gestão de vulnerabilidades), cláusulas contratuais de segurança e planos de resposta a incidentes em fornecedores críticos.

Sustentabilidade e conformidade

A área de compras é uma alavanca central da estratégia ESG, sobretudo no impacto indireto (Scope 3). Apesar de a UE ter aprovado em 2025 um “stop the clock” e simplificações no âmbito da CSRD/CSDDD, o sentido de marcha mantém‑se: mais transparência e melhor qualidade de dados sobre a cadeia de valor. Em Portugal, isto significa preparar desde já processos e sistemas para recolher, consolidar e auditar informação ambiental e social dos fornecedores, mesmo com calendários alargados. Integrar critérios de sustentabilidade em cadernos de encargos e acordos‑quadro torna‑se, assim, uma prioridade pragmática.

Evolução do perfil do comprador

À medida que a automação cuida do transacional, o comprador desloca‑se para atividades de maior valor: gestão de categorias baseada em dados, desenvolvimento de fornecedores, avaliação de risco e influência interna. Competências técnicas (literacia de dados, modelização de TCO, entendimento de IA e cibersegurança) e comportamentais (comunicação, influência, adaptabilidade) passam a ser diferenciadoras. Para inspiração e preparação, vale a pena explorar uma visão de futuro sobre a função de compras em 2030 e entender onde a IA já traz ganhos tangíveis ao trabalho diário das equipas.

A transformação digital nas compras em Portugal já não é uma hipótese: é uma realidade que combina pressão regulatória (e‑invoicing B2G, NIS2), expectativas ESG e a disponibilidade de tecnologias maduras com ROI comprovado. Quem alinhar pessoas, processos e dados com esta ambição ganha em agilidade, eficiência e visibilidade.

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